Este blog fala de coisas transcendentais, ou seja, das coisas simples que nos fazem ir além de nós mesmos - e do lugar em que nossa realidade nos insere - para construirmos, inventarmos, reeditarmos modos de vida, procedimentos, regras, abordagens, conceitos, compreensões. Como a leitura. Não podemos nos confundir: compram-se livros, mas a leitura é uma construção muito particular, ainda que permeável ao, favorecida pelo, e instigadora do diálogo.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Ciranda
Hoje fui às compras. Comprei uma ciranda. A gente girava e cantava de mãos dadas, dançando e brincando, parados no mesmo lugar (ou prestes a voltar a ele). Talvez a história se desenrole como uma ciranda, forma coreografada de pulsão e des-empenho. E a gente cantava assim:
Como pode um barco-vivo viver atarracado no porto?
Achando que sabe tudo o que haveria na deriva?
Achando que navegar não é precioso,
E que a vida não virará se estiver ancorada?
A vida vira, é revirada, é revirável.
Como poderíamos estar sempre nos tornando, Pessoa, sempre nos revirando;
Como poderíamos viver
Sem a tua poesia?
p.s. A foto é de dançarinos de rua fazendo ótimo uso da largura do passeio em um sábado à noite. Revirando-se, afinal, pois "sábado à noite tudo pode mudar". A música que eles tocavam não é a que eu fui ouvir, esta, imperdível: https://soundcloud.com/deriva-kristoff-silva
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Presente
Hoje fui às compras. Comprei o presente para dar de presente a quem precisa. Sentir-se fora do tempo é origem de muito mal-estar, seja na dança, no amor, no conhecimento prático ou teórico, nos procedimentos, nas vivências do cotidiano e do espaço construído.
A possibilidade de trabalhar em compasso - consigo próprio e, em alguns momentos, com o grupo também - é revigorante. Sentir-se fora do tempo, remete a sentir-se fora do passo, fora do prazo, fora da lei.
Mas isso era em outros tempos; quando a lei era mais instrumento de reflexão que dispositivo a delinear e refrear o seu próprio enfrentamento. Estar fora do tempo hoje significa, não raro, estar dentro da lei. A lei do laisser-ne-faire-rien, laisser-effacer.
sábado, 25 de janeiro de 2014
Or-ação
Fonte: http://www.openstreetmap.org/#map=17/-1.26231/36.85679
Hoje fui às compras. Comprei outro oximoro: uma oração que
mais pede que agradece, como todas. Pede para manter o olhar atento e o faro
ligado, e agradece o potencial para realizar isso. Uma oração
que pede ajuda para que se aprimore cada vez mais a ação, a percepção, a
crítica; que pede o afastamento da psicopatia, da letargia, e também de sua liturgia. Uma oração cujo conteúdo é seu próprio nome, que carrega, em si, sua
alternativa: or-ação.
p.s. Muitas áreas de Nairóbi, no Quênia, impressionam pela quantidade de igrejas. O mapa mostra a região da favela de Mathare, mas o mesmo é visto em Kariandundu, Kibera... Só que esse fenômeno, que talvez se faça entender também como sintoma, faz-se perceptível através do mapeamento. A "realidade" da vista aérea dissimula "as realidades", inclusive as espectrais, que o mapa torna visíveis.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Triplo-diploma-twist-carpado
Hoje
fui às compras. Comprei um diploma. Já não basta mais ser analista de sistemas;
entender que está tudo articulado com considerável grau de complexidade,
identificar as articulações, as ambiguidades, dissecar os processos, armazenar os registros. É
preciso ser também analista de esquemas; para poder dizer "não" sem perder a razão nem a
integridade. Dizer "sim" ao critério, ao "revirão", e "não" à ingenuidade. Esse "dizer" não é comprado, tem que ser arquitetado. Nenhum diploma pode ser desperdiçado.
p.s. A foto é do bairro Vale do Sereno, Nova Lima, RMBH, Minas Gerais.
O "revirão" é um princípio sobre o qual fala José Miguel Wisnik, em http://www.youtube.com/watch?v=jXmfFv2iEUY
O "revirão" é um princípio sobre o qual fala José Miguel Wisnik, em http://www.youtube.com/watch?v=jXmfFv2iEUY
Stand Up Poetry
Hoje fui às compras. Comprei
ingresso para o prazer de ouvir alguém dizer uma poesia com humor.
“Gastei uma hora pensando em um verso que a pena não quer escrever”(1). Como
não rir dessas nossas pequenas tragédias, se bem ditas; tão mais instigantes que os dramas
cotidianos cujas piadas nada acrescentam à nossa “ignorãça”(2). A via do
humor é mesmo um dos caminhos para a consciência, mas precisa ser um humor tão
raso? “Ocupo muito de mim com o meu desconhecer”(2). Ocupar-se é diferente de
distrair-se, de evadir-se para um estado de negação. Não dá para fugir é
de arrepender-se do tempo perdido. Mas, para isso, também é preciso ter consciência.
“Fiz de mim o que não soube e o que podia fazer de mim não o fiz”(3). Mesmo
rasos, a comédia em pé, os seriados, os avatares digitais não nos eximem da
tragédia que representam. Como diz Wisnik, “diante da tragédia, não faça drama,
a tragédia é um outro gênero.”(4)
Parece-me melhor a tragédia da incerteza que o drama da ignorância.
Parece-me melhor a tragédia da incerteza que o drama da ignorância.
“Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a
mesma coisa que não pode haver tantos! [...]
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?”(3)
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?”(3)
Notas:
A foto é do The Old Vic, teatro londrino onde diversão, cultura e civilização aninham-se em camadas. Ocupam "o mesmo ponto, sem superposição nem transparência", como diz Borges (5).
(1) ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia.
In:___. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, 2002.
(2) BARROS, Manoel de. XXI. In:___. O livro
das ignorãças. Disponível em http://comvest.uepb.edu.br/concursos/vestibulares/vest2013/Manuel_de_BarrosO_Livro_Das_Ignoracas.pdf
(3) Poema Tabacaria, de Fernando Pessoa (Álvaro de
Campos), disponível em http://arquivopessoa.net/textos/163
(4) José Miguel Wisnik, em palestra disponível em http://www.youtube.com/watch?v=jXmfFv2iEUY(5) Jorge Luis Borges, no conto "O Aleph", disponível em http://epoca.globo.com/edic/657/657_trecho_O_Aleph.pdf
sábado, 18 de janeiro de 2014
Nascente
Hoje
fui às compras. Comprei uma nascente. Muitas existem em propriedades rurais, e
a elas deve-se deixar o acesso livre para quem careça água de beber. A
urbanização lhes serve de ameaça e, tal como é praticada hoje, não atinge
apenas o acesso à água, mas toda uma cultura de solidariedade com o outro e de
relação com a terra em que se vive. A importância da nascente vai muito além do direito de propriedade, muito além do que pode ser adquirido em troca de dinheiro, muito
além do que pode ser calculado em moeda de troca. A nascente tem suas próprias
moedas de troca; uma delas é o tempo. Deixar perder-se a nascente,
negligenciá-la, secá-la, soterrá-la são ações que exprimem o que os indivíduos
fazem também consigo mesmos e com as coletividades em que se inserem. Negam a
hipótese de viver no presente e no futuro. Destroem suas possibilidades de ir
além de si mesmos, do valor que lhes é atribuído pelos outros e ao qual eles
não têm necessariamente que se ater. Desperdiçam suas nascentes pessoais: a energia que neles
brota a cada instante, e que podem fazer durar. Essa é a nascente que comprei hoje: a escolha por ser
nascente, crescente, vivente, contente, presente, premente... para, só depois,
morrer.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Nome científico
Hoje
fui às compras. Comprei um nome científico para a doença cuja prima – já bem
conhecida – atinge o corpo, silenciosa e traiçoeiramente. Esta também faz isso,
mas começa pela mente. Se tivermos sorte, talvez um dia possamos encontrá-la no
Wikipédia assim:
Diabesta
mallocus – Doença metafísica caracterizada por um aumento
da desorganização mental. A mente é a principal fonte de energia psíquica do
organismo, porém, quando essa energia se apresenta extraordinariamente
desorganizada, sem destinação nem esgotamento, pode trazer várias complicações.
É a capacidade psíquica que possibilita ao sujeito trabalhar sobre as emoções e
os sentimentos a partir das ações de seu intelecto. Entre os efeitos desse
desequilíbrio podem-se citar o excesso de agressividade – latente ou manifesta, a incapacidade de lidar com frustrações, problemas de relacionamento consigo
próprio e com os outros, no trabalho, no amor. Quando não enfrentada
adequadamente, o quadro pode evoluir produzindo “ataques de nervos”, histeria,
depressão, melancolia, lesões emocionais de difícil cicatrização e tratamento; além
de possivelmente transmissíveis. Embora não haja cura definitiva para o (a) Diabesta,
há vários recursos disponíveis que, se o sujeito tiver vontade e coragem pra
querer, possibilitam mais qualidade de vida. É uma doença bastante comum, mas
muitos pacientes desconhecem ou negam a possibilidade de serem portadores desse
mal-estar que afeta muito mais que a si mesmos.
p.s. A foto e o sobrenome mostram que a Diabesta manifesta-se também através do solo sobre o qual se assenta uma sociedade com alta taxa de infestação. Nele, as lesões sorrateiras incluem os escorregamentos; as lesões oclusas, a contaminação e extermínio das nascentes. Isso tudo acontecendo no fundo dos lotes, no fundo dos vales, no fundo do intelecto já tão parcelado e desmembrado desse sujeito urbano que somos nós.
Bairro Paraíso, Belo Horizonte, 18-12-2013
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